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O que continuará pertencendo ao médico na era da inteligência artificial?

Pergunta central: Quando a inteligência artificial puder analisar dados, sugerir diagnósticos e indicar tratamentos com grande precisão, o que ainda continuará sendo responsabilidade do médico? Um sistema de inteligência artificial analisa, em poucos segundos, anos de informações acumuladas no prontuário de um paciente. Compara resultados laboratoriais, interpreta imagens, organiza os medicamentos utilizados, identifica uma interação […]

Por Prof. Dr. Fernando Guedes6 min de leitura
O que continuará pertencendo ao médico na era da inteligência artificial?
Ciência · experiência · humanismo · cuidado

Pergunta central: Quando a inteligência artificial puder analisar dados, sugerir diagnósticos e indicar tratamentos com grande precisão, o que ainda continuará sendo responsabilidade do médico?

Um sistema de inteligência artificial analisa, em poucos segundos, anos de informações acumuladas no prontuário de um paciente.

Compara resultados laboratoriais, interpreta imagens, organiza os medicamentos utilizados, identifica uma interação potencialmente perigosa e relaciona uma alteração recente a uma hipótese que ainda não havia sido considerada. Em seguida, consulta milhares de estudos e apresenta as opções terapêuticas mais bem sustentadas pelas evidências disponíveis.

Nenhum médico, trabalhando sozinho, conseguiria reunir e comparar tão rapidamente tamanha quantidade de informações.

A recomendação oferecida pelo sistema parece consistente. Os riscos foram calculados, as alternativas foram organizadas e as referências científicas estão disponíveis.

Entretanto, o paciente está diante do médico e pergunta:

“Doutor, diante de tudo isso, o que o senhor acredita que eu devo fazer?”

Essa pergunta não solicita apenas mais uma informação. Também não pede que o médico repita a recomendação produzida pela máquina.

O paciente deseja saber como as diferentes possibilidades se aplicam à sua vida. Quer compreender o que poderá ganhar, o que poderá perder, quais riscos precisará enfrentar e qual caminho parece mais coerente com aquilo que deseja preservar.

E, sobretudo, espera que alguém assuma a responsabilidade de ajudá-lo a decidir.

A inteligência artificial pode participar intensamente desse processo. Pode ampliar o conhecimento, revelar possibilidades e reduzir erros. Mas a decisão clínica não termina quando o sistema apresenta uma resposta.

É justamente nesse momento que a responsabilidade do médico se torna mais evidente.

Uma transformação que não deve ser diminuída

A inteligência artificial não é apenas mais um equipamento incorporado à medicina. Sua presença poderá modificar atividades que, durante muito tempo, foram consideradas parte do núcleo intelectual da profissão.

Sistemas computacionais já são capazes de organizar prontuários, reconhecer padrões em imagens, resumir histórias clínicas, localizar evidências e estimar riscos. Com seu desenvolvimento, poderão participar de um número crescente de atividades:

  • registrar e resumir consultas;
  • integrar informações dispersas;
  • comparar sintomas e hipóteses;
  • reconhecer alterações em exames de imagem;
  • identificar interações medicamentosas;
  • estimar riscos e prognósticos;
  • sugerir exames e tratamentos;
  • acompanhar mudanças ao longo do tempo;
  • localizar pesquisas atualizadas;
  • produzir explicações adaptadas a diferentes pacientes.

Esses recursos poderão reduzir tarefas repetitivas, ampliar a segurança e oferecer ao médico informações que dificilmente seriam reunidas com a mesma rapidez.

Negar essa capacidade seria uma forma de proteger uma imagem antiga da medicina, não de preparar o médico para o futuro.

A questão não é saber se a inteligência artificial realizará atividades atualmente desempenhadas por profissionais. Muitas delas certamente serão compartilhadas, transformadas ou automatizadas.

A questão mais profunda é outra:

Quando parte crescente do trabalho técnico e cognitivo puder ser realizada pela inteligência artificial, o que ainda continuará pertencendo ao médico?

O perigo de procurar apenas o que a máquina não consegue fazer

Diante do avanço tecnológico, é comum procurar uma característica que preserve a superioridade humana.

Afirma-se que a inteligência artificial nunca terá empatia, jamais compreenderá contextos complexos ou será incapaz de estabelecer uma relação verdadeira.

Essas afirmações oferecem conforto, mas são frágeis.

Mesmo que um sistema não experimente emoções como um ser humano, poderá reconhecer sinais emocionais e produzir respostas percebidas como acolhedoras. Poderá analisar narrativas, adaptar a linguagem, lembrar preferências e considerar contextos com crescente sofisticação.

Talvez consiga realizar determinadas tarefas comunicativas com mais paciência do que um profissional exausto e submetido a atendimentos sucessivos.

Por isso, não deveríamos fundamentar o valor do médico apenas nas limitações atuais da tecnologia. Cada avanço poderia deslocar novamente essa fronteira.

A identidade da medicina não pode depender de uma competição entre o ser humano e a máquina para descobrir quem memoriza mais informações, calcula mais rapidamente ou reconhece mais padrões.

Em vez de perguntar apenas “O que a inteligência artificial ainda não consegue fazer?”, precisamos formular uma questão mais exigente:

“O que não deveria ser inteiramente delegado, mesmo quando a tecnologia for capaz de participar?”

Essa mudança de pergunta nos conduz da capacidade para a responsabilidade.

Informação não é compreensão

A inteligência artificial pode reunir informações de maneira extraordinária.

Pode indicar que determinado tratamento aumenta a probabilidade de sobrevida, reduz o risco de uma complicação ou apresenta menor incidência de efeitos adversos. Pode comparar alternativas e calcular resultados prováveis.

Mas compreender uma situação clínica exige mais do que acumular dados.

Imagine um paciente com uma doença avançada diante de duas possibilidades. A primeira oferece maior probabilidade de prolongar a vida, mas exige internações frequentes e apresenta grande risco de comprometer sua autonomia. A segunda oferece menor possibilidade de prolongamento, porém favorece o controle dos sintomas e a permanência em casa.

Um sistema poderá calcular os riscos de cada alternativa com grande precisão.

Não poderá, a partir dos números isoladamente, determinar quanto a autonomia significa para aquele paciente, que importância ele atribui ao tempo vivido em casa ou quais perdas considera aceitáveis.

Essas informações podem ser registradas e incorporadas ao cálculo. Mas, antes disso, precisam ser compreendidas.

Talvez o paciente nunca tenha pensado claramente sobre essas questões. Pode dizer inicialmente que deseja “fazer tudo”, sem compreender o que “tudo” significa. Pode mudar de posição quando conhece as consequências concretas. Pode desejar uma coisa e, ao mesmo tempo, temer aquilo que será necessário para alcançá-la.

A informação responde:

“O que pode acontecer?”

A compreensão pergunta:

“O que isso representa nesta vida?”

A primeira pergunta pode ser respondida por dados e probabilidades. A segunda exige uma aproximação à experiência da pessoa.

A inteligência artificial processa dados; o médico encontra uma pessoa

A inteligência artificial pode analisar informações sobre o paciente, inclusive suas narrativas, preferências e circunstâncias de vida.

Ainda assim, existe uma diferença entre processar informações sobre alguém e assumir uma relação de cuidado com essa pessoa.

O paciente não oferece ao médico apenas dados. Entrega parte de sua intimidade, permite que seu corpo seja examinado, relata seus medos e confia decisões que afetarão seu futuro.

Essa confiança cria uma responsabilidade.

O encontro clínico não é apenas uma troca de informações entre dois sistemas. É uma relação marcada pela vulnerabilidade. Uma pessoa procura ajuda porque algo ameaça seu corpo, sua autonomia, seus projetos ou sua própria continuidade.

Diante dela, o médico precisa perguntar:

  • Quem é esta pessoa?
  • O que ela compreendeu?
  • O que deseja preservar?
  • Quais riscos está disposta a aceitar?
  • Que circunstâncias limitam suas escolhas?
  • O que ainda não conseguiu formular?
  • Como esta decisão afetará sua vida e seus vínculos?
  • Que recomendação posso assumir responsavelmente diante dela?

Essas perguntas não rejeitam os dados. Elas lhes conferem significado clínico.

Quanto maior for a capacidade da tecnologia de produzir informações, mais importante será a capacidade do médico de reconhecer quais delas importam para aquela pessoa.

Da probabilidade à decisão

A medicina trabalha com probabilidades.

Um tratamento pode reduzir o risco de determinada complicação, mas produzir efeitos adversos. Um procedimento pode oferecer benefício potencial e, ao mesmo tempo, impor sofrimento, dependência ou longos períodos de recuperação.

A inteligência artificial poderá estimar essas possibilidades com precisão crescente.

Entretanto, nenhuma probabilidade determina automaticamente o que deve ser feito.

Uma chance de benefício considerada valiosa por um paciente pode parecer insuficiente para outro. Uma mesma consequência pode ser tolerável em determinada fase da vida e inaceitável em outra.

Além disso, diferentes objetivos podem entrar em conflito:

  • prolongar a vida;
  • aliviar sintomas;
  • preservar a autonomia;
  • manter a lucidez;
  • permanecer em casa;
  • evitar hospitalizações;
  • reduzir o sofrimento da família;
  • realizar um projeto ainda importante.

A tecnologia pode comparar as probabilidades associadas a cada caminho. Mas a passagem do “pode ser feito” para o “deve ser feito” exige deliberação.

Deliberar significa avaliar possibilidades que envolvem benefícios, riscos, valores e perdas. Significa reconhecer que, em algumas situações, não existe uma alternativa sem consequências difíceis.

É nesse espaço que o julgamento clínico e a responsabilidade ética se tornam indispensáveis.

Julgamento clínico não é apenas cálculo

O julgamento clínico reúne conhecimentos de diferentes naturezas.

Ele considera as evidências científicas, os resultados dos exames, a experiência profissional, as circunstâncias particulares, as incertezas e os valores do paciente.

Também precisa reconhecer os limites de cada informação.

Uma recomendação produzida por inteligência artificial pode estar baseada em pesquisas de alta qualidade. Ainda assim, o médico precisará perguntar:

  • Os pacientes estudados se parecem com esta pessoa?
  • Que informações não foram incluídas no sistema?
  • Existem conflitos entre diferentes recomendações?
  • O benefício esperado é relevante neste momento?
  • Quais riscos não foram adequadamente considerados?
  • Há algum viés nos dados utilizados?
  • O sistema está expressando certeza maior do que a evidência permite?
  • Esta recomendação é compatível com os objetivos do paciente?

O médico não deverá rejeitar uma indicação apenas porque foi produzida por uma máquina. Tampouco deverá aceitá-la automaticamente por causa da aparência de precisão.

Seguir uma recomendação algorítmica também é uma decisão.

A tecnologia pode calcular. O julgamento precisa determinar o significado, a pertinência e o peso do cálculo naquela situação.

O algoritmo também possui limites

A inteligência artificial pode reduzir erros humanos, mas não elimina a possibilidade de erro.

Sistemas são construídos a partir de dados, objetivos e critérios escolhidos por pessoas e instituições. Se os dados utilizados não representam adequadamente determinados grupos, as recomendações podem ser menos precisas justamente para esses pacientes.

Informações incorretas ou incompletas no prontuário também podem produzir conclusões inadequadas. Um sistema pode reconhecer padrões estatísticos sem identificar corretamente relações de causa. Pode oferecer uma resposta aparentemente segura quando, na verdade, existem incertezas importantes.

Além disso, decisões sobre saúde nunca são inteiramente neutras.

Escolher o que será medido, qual resultado será priorizado e que nível de risco será considerado aceitável envolve valores.

Um sistema voltado principalmente para reduzir custos pode recomendar caminhos diferentes de outro destinado a maximizar a sobrevida. Uma instituição preocupada com produtividade pode utilizar a tecnologia de maneira distinta daquela comprometida com o tempo de escuta.

Por isso, a pergunta não deve ser apenas se a inteligência artificial funciona. Também precisamos perguntar:

Para quem funciona? Em quais condições? Segundo quais critérios? Com quais consequências?

A avaliação crítica da tecnologia passará a fazer parte da própria competência médica.

A responsabilidade não pode desaparecer atrás do algoritmo

Quando o paciente pergunta “O que o senhor recomenda?”, não está solicitando apenas um resultado estatístico.

Está pedindo que alguém interprete as alternativas, considere sua história e assuma uma posição profissional.

O médico poderá responder:

“Analisei as opções, considerei as informações oferecidas pelo sistema, examinei as evidências e ouvi aquilo que é importante para você. Diante disso, acredito que este seja o melhor caminho.”

Essa recomendação não precisa ser autoritária. Pode ser discutida, compartilhada e revista. Mas precisa existir.

A decisão compartilhada não significa deixar o paciente sozinho diante de uma lista de probabilidades. Também não significa esconder a responsabilidade médica atrás da afirmação: “Foi isso que o algoritmo indicou.”

A inteligência artificial pode participar da decisão. Não deveria ocupar o lugar de quem responde por ela diante do paciente.

É possível que a responsabilidade pelo uso desses sistemas seja distribuída entre profissionais, instituições, desenvolvedores e autoridades reguladoras. Mas, no encontro clínico, continuará sendo necessário alguém capaz de explicar por que determinada recomendação foi aceita e como ela se relaciona àquela pessoa.

A tecnologia não deve se transformar em uma nova forma de autoridade incontestável.

Durante muito tempo, o paciente escutou: “É assim porque o médico decidiu.”

Na era da inteligência artificial, não podemos substituir essa frase por: “É assim porque o sistema indicou.”

O avanço tecnológico precisa ampliar a capacidade de reflexão, não criar uma nova obediência.

Explicar também é cuidar

A inteligência artificial poderá produzir explicações claras, traduzir termos técnicos e adaptar informações a diferentes níveis de compreensão.

Esses recursos serão valiosos.

Entretanto, comunicar uma decisão clínica não significa apenas transmitir corretamente seu conteúdo.

O médico precisa acompanhar o efeito da informação sobre quem a recebe.

Pode perceber que o paciente deixou de escutar depois de uma palavra que o assustou. Pode notar que uma explicação foi repetida, mas não compreendida. Pode reconhecer que a pessoa concorda apenas porque teme contrariá-lo.

Algumas informações precisam ser oferecidas gradualmente. Outras exigem a presença da família. Há decisões que precisam de tempo para amadurecer. Existem silêncios que expressam dúvidas ainda sem palavras.

Uma notícia não termina quando foi pronunciada.

Ela precisa ser compreendida, relacionada à vida e transformada em possibilidade de ação.

A inteligência artificial pode ajudar a formular uma explicação. Mas o médico precisa reconhecer diante de quem ela será apresentada, em que momento e com quais consequências.

Explicar também é perceber quando a informação se tornou excessiva, quando precisa ser retomada e quando o paciente necessita apenas de alguns minutos para assimilar o que ouviu.

Comunicar é acompanhar.

Permanecer diante do sofrimento

Há momentos em que a medicina não possui uma solução capaz de eliminar o problema.

Uma doença pode não ter cura. Um tratamento pode deixar de funcionar. Uma demência pode continuar avançando. Uma perda pode tornar-se irreversível. A morte pode aproximar-se apesar de todos os recursos utilizados.

Nessas situações, a inteligência artificial ainda poderá oferecer grande ajuda. Poderá sugerir medidas de controle de sintomas, organizar cuidados e antecipar necessidades.

Mas o paciente e a família continuarão precisando de alguém que permaneça diante deles.

Permanecer não significa apenas estar fisicamente presente. Significa não transformar os limites da medicina em abandono.

O médico pode dizer:

“Não temos um tratamento capaz de reverter a doença, mas continuaremos cuidando.”

Essa frase contém algo que nenhum cálculo oferece sozinho: um compromisso.

Eric Cassell mostrou que o sofrimento não atinge apenas o organismo. Atinge a pessoa, sua identidade, seus vínculos e sua percepção do futuro.

Quando a cura já não é possível, ainda é necessário compreender o que está ameaçado e o que pode ser protegido.

Talvez seja possível aliviar a dor, evitar procedimentos desproporcionais, preservar a lucidez, facilitar uma despedida ou permitir que o paciente permaneça em casa.

Nesses momentos, a medicina revela que cuidar é mais amplo do que corrigir alterações biológicas.

O médico não perde sua função quando a técnica alcança seus limites. Pode ser justamente então que sua presença se torne mais necessária.

Inteligência artificial como substituição ou elaboração do pensamento

A inteligência artificial pode ser utilizada de duas maneiras profundamente diferentes.

Pode funcionar como substituição do pensamento ou como instrumento de elaboração do pensamento.

Quando utilizada como substituição, o médico recebe uma resposta e a aceita sem examinar seus fundamentos, suas limitações ou sua adequação ao paciente.

O sistema sugere uma hipótese, e ela se torna o diagnóstico. Apresenta uma conduta, e ela se transforma automaticamente em prescrição.

Nesse caso, a inteligência artificial não amplia a medicina. Pode apenas substituir uma forma antiga de autoridade por outra tecnologicamente mais sofisticada.

Quando utilizada como instrumento de elaboração, a relação muda.

A inteligência artificial amplia as hipóteses, localiza evidências, identifica contradições, apresenta alternativas e questiona conclusões. O médico dialoga criticamente com essas informações.

Pergunta:

“O que não estou vendo?”

“Que outra possibilidade deveria considerar?”

“Qual é a qualidade desta evidência?”

“Que aspectos da vida do paciente não foram incluídos?”

“Que consequências esta recomendação pode produzir?”

A tecnologia não encerra o raciocínio. Participa de sua construção.

Essa distinção será decisiva.

O pensamento continuará pertencendo ao médico não porque ele produza sozinho todas as informações, mas porque precisa interpretá-las, confrontá-las com a realidade e responder pelo uso que fará delas.

A inteligência artificial pode colaborar com a forma do raciocínio. A experiência, a responsabilidade e o sentido da decisão ainda precisam permanecer vinculados a quem cuida.

O risco de perder aquilo que delegamos

Toda ferramenta modifica também quem a utiliza.

Quando uma tecnologia assume determinada atividade, pode liberar o profissional para tarefas mais importantes. Mas também pode enfraquecer capacidades que deixam de ser exercitadas.

Se o médico delegar continuamente a construção da história, a formulação das hipóteses, a interpretação dos exames e a escolha das condutas, poderá perder progressivamente a capacidade de avaliar a qualidade das respostas oferecidas pela própria tecnologia.

Para supervisionar uma inteligência artificial, o médico precisa continuar sabendo medicina.

Sem conhecimento, não existe supervisão. Existe dependência.

O mesmo vale para a relação clínica.

Se as perguntas, explicações e orientações forem inteiramente transferidas para sistemas automatizados, o profissional poderá perder a capacidade de escutar, comunicar notícias difíceis e deliberar com o paciente.

Essas habilidades não permanecem disponíveis sem exercício.

Por isso, a formação médica não deverá se tornar mais superficial diante da inteligência artificial. Precisará tornar-se mais profunda.

O médico continuará necessitando de conhecimento científico, fisiopatologia, raciocínio clínico e capacidade de avaliar evidências. Também precisará compreender vieses algorítmicos, limites dos dados, incertezas e formas responsáveis de supervisão.

Ao mesmo tempo, a formação deverá desenvolver capacidades que frequentemente receberam atenção insuficiente:

  • pensamento crítico;
  • julgamento clínico;
  • comunicação;
  • ética;
  • reconhecimento da singularidade;
  • escuta;
  • decisão compartilhada;
  • formação humanística.

Quanto mais poderosa for a ferramenta, maior precisará ser a formação de quem decide como utilizá-la.

O presente do tempo

Eric Topol, cardiologista e pesquisador norte-americano, defende que a inteligência artificial pode ajudar a devolver à medicina um de seus recursos mais escassos: o tempo.

Grande parte do trabalho médico é consumida por registros, buscas, conferências, transcrições e tarefas administrativas. Se essas atividades puderem ser reduzidas, o profissional talvez volte a dispor de tempo para permanecer diante do paciente.

Esse seria um dos maiores benefícios da tecnologia.

Mas o tempo liberado é apenas uma possibilidade.

Ele poderá ser utilizado para aumentar o número de atendimentos, acelerar ainda mais as consultas e ampliar a produtividade. A tecnologia pode reduzir uma tarefa e, imediatamente, criar espaço para novas exigências.

Por isso, a pergunta fundamental não será apenas:

“Quanto tempo a inteligência artificial economizará?”

Precisaremos perguntar:

“O que faremos com o tempo que ela nos devolverá?”

Esse tempo poderá ser transformado em escuta, exame atento, explicação, deliberação e encontro.

Mas isso somente acontecerá se o médico estiver preparado para utilizá-lo dessa maneira.

A inteligência artificial pode devolver tempo; a formação humanística precisa ensinar o médico a transformá-lo em encontro.

A formação humanística torna-se mais necessária

É possível imaginar que, quanto mais tecnológica se tornar a medicina, menos espaço haverá para a formação humanística.

O contrário parece mais provável.

Quanto maior for a capacidade de intervir, mais importantes se tornarão as perguntas sobre os objetivos e os limites da intervenção.

A tecnologia poderá dizer com crescente precisão o que é possível fazer. A formação humanística ajudará o médico a perguntar:

  • Que vida será afetada por esta decisão?
  • Qual é o bem possível nesta situação?
  • Que riscos estamos autorizados a impor?
  • O que significa respeitar esta pessoa?
  • O que precisa ser preservado?
  • Quando uma intervenção deixa de cuidar?
  • Quem responderá pelas consequências?

A filosofia ajuda a examinar os fundamentos das decisões. A ética interroga as responsabilidades. A psicologia amplia a compreensão das emoções e dos vínculos. A literatura permite contato com experiências humanas diferentes das nossas. As narrativas de adoecimento revelam o que a doença significa para quem a vive.

Essas áreas não competem com a ciência.

Elas permitem compreender dimensões da realidade que os dados, isoladamente, não conseguem esgotar.

A formação humanística não servirá para afastar o médico da tecnologia. Servirá para impedir que ele se torne apenas seu operador.

Uma nova compreensão da competência médica

Durante muito tempo, a competência profissional esteve associada à quantidade de informações que o médico conseguia armazenar e recordar.

Na era da inteligência artificial, essa medida se tornará progressivamente insuficiente. Nenhum profissional poderá competir com a capacidade de memória, busca e processamento de um sistema computacional.

O valor do médico não desaparecerá. Mas precisará ser compreendido de outra maneira.

A competência estará cada vez mais relacionada à capacidade de:

  • formular a pergunta adequada;
  • avaliar criticamente as respostas;
  • reconhecer o que os dados não mostram;
  • identificar quando uma recomendação não se aplica;
  • integrar diferentes formas de conhecimento;
  • compreender a pessoa que adoece;
  • deliberar diante da incerteza;
  • comunicar com responsabilidade;
  • assumir uma recomendação;
  • acompanhar suas consequências;
  • transformar consulta em encontro.

O médico deixará de ser a única ou principal fonte de informações. Poderá tornar-se o profissional capaz de transformar informações em compreensão e possibilidades em cuidado.

Isso não representa uma redução de sua função.

Representa uma responsabilidade ainda maior.

O que continuará pertencendo ao médico?

Voltemos à pergunta inicial.

Quando a inteligência artificial puder analisar dados, sugerir diagnósticos e indicar tratamentos com grande precisão, o que continuará pertencendo ao médico?

Continuará pertencendo ao médico a responsabilidade de reconhecer quem é a pessoa que receberá a recomendação.

Caberá a ele avaliar a pertinência das informações, integrar evidências e circunstâncias, perceber conflitos entre diferentes objetivos e ajudar o paciente a compreender as consequências de cada possibilidade.

Continuarão pertencendo ao médico o julgamento diante da incerteza, a deliberação ética, a recomendação profissional e o compromisso de acompanhar aquilo que foi decidido.

Também lhe caberá reconhecer quando a tecnologia está errada, quando os dados são insuficientes e quando o problema apresentado pelo paciente não cabe inteiramente nas categorias disponíveis.

E continuará pertencendo ao médico a responsabilidade de não abandonar a pessoa quando já não houver uma solução capaz de eliminar a doença.

Nada disso exige negar a inteligência artificial. Ao contrário, exige utilizá-la em toda a sua potência, sem entregar a ela aquilo que o profissional precisa continuar assumindo.

Conclusão

A inteligência artificial poderá realizar muitas tarefas melhor e mais rapidamente do que o médico. Poderá reconhecer padrões, organizar informações, localizar evidências, estimar riscos e sugerir caminhos.

Essas capacidades devem ser incorporadas à medicina quando demonstrarem segurança e benefício.

Mas a prática médica não se encerra na produção de uma resposta tecnicamente correta.

Alguém precisa compreender o significado dessa resposta na vida de uma pessoa, reconhecer seus valores, avaliar as circunstâncias e deliberar sobre as consequências.

Alguém precisa explicar, recomendar, acompanhar e, quando necessário, rever a decisão.

O médico do futuro não será valorizado por competir com a máquina em memória, velocidade ou capacidade de cálculo. Será valorizado por utilizar essas capacidades para compreender melhor, decidir com prudência e cuidar com responsabilidade.

A inteligência artificial pode participar do raciocínio, ampliar possibilidades e devolver tempo. O médico precisa garantir que esse tempo se transforme em presença e que essas possibilidades se transformem em cuidado.

A inteligência artificial pode ampliar as possibilidades da medicina; continuará pertencendo ao médico a responsabilidade de transformá-las em cuidado.

Referências fundamentais

  • BUBER, Martin. Eu e Tu.
  • CASSELL, Eric J. The Nature of Suffering and the Goals of Medicine.
  • JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica.
  • PELLEGRINO, Edmund D.; THOMASMA, David C. For the Patient’s Good: The Restoration of Beneficence in Health Care.
  • POLANYI, Michael. The Tacit Dimension.
  • RICOEUR, Paul. O si-mesmo como outro.
  • SCHÖN, Donald A. The Reflective Practitioner: How Professionals Think in Action.
  • TOPOL, Eric. Deep Medicine: How Artificial Intelligence Can Make Healthcare Human Again.
“O conhecimento ganha sentido quando se transforma em presença e cuidado.”

Esta publicação integra a produção editorial do Instituto de Formação Humanística em Saúde e propõe ampliar o diálogo entre ciência, experiência profissional e compreensão humana.

FG
Prof. Dr. Fernando Guedes

Médico, professor, palestrante e escritor.