Um termômetro pode medir a temperatura de uma pessoa. Não pode, porém, revelar como ela atravessou uma noite de febre.
Pode registrar o grau exato da alteração, permitir comparações, orientar uma conduta e indicar se o tratamento produziu o efeito esperado. Tudo isso é indispensável. Mas a inquietação diante dos sintomas, o medo de que a doença se agrave, a solidão das horas que não passam e as lembranças despertadas pela fragilidade não aparecem na coluna de mercúrio nem no visor digital.
Não porque sejam menos reais.
Apenas porque pertencem a outra dimensão da experiência.
A medicina aprendeu a medir quase tudo o que acontece no organismo. Mede a temperatura, a pressão arterial, a frequência cardíaca, a concentração de substâncias no sangue, a dimensão dos órgãos, a velocidade dos processos fisiológicos e a probabilidade de determinados acontecimentos futuros. Aquilo que antes dependia apenas da impressão do observador pôde ser transformado em parâmetros comparáveis e compartilháveis.
Essa foi uma conquista extraordinária.
Medir permitiu reconhecer alterações antes que se tornassem evidentes, acompanhar a evolução das doenças, avaliar os efeitos dos tratamentos e construir critérios mais seguros para as decisões clínicas. Quando uma medida é precisa, diferentes profissionais podem examinar o mesmo dado, compará-lo com outros resultados e discutir seu significado. A medicina reduz, assim, a dependência das impressões individuais e amplia sua capacidade de cuidar com segurança.
O número não é inimigo do cuidado. Muitas vezes, é exatamente aquilo que torna o cuidado possível.
Mas algo começa a se modificar quando a medida deixa de ser apenas uma forma de conhecer determinados aspectos da realidade e passa a estabelecer quais aspectos merecem ser reconhecidos como reais.
Um paciente procura atendimento e diz que não está bem. Os exames são realizados, os resultados permanecem dentro dos valores de referência e, ao final, ele escuta: “Está tudo normal.”
Essa afirmação pode ser rigorosamente correta dentro dos limites daquilo que foi investigado. Talvez nenhum instrumento tenha identificado uma alteração orgânica relevante. Talvez os resultados realmente afastem doenças que precisavam ser excluídas. O problema surge quando a normalidade dos exames é tomada como resposta suficiente para a experiência que levou aquela pessoa a procurar ajuda.
Os instrumentos responderam a uma pergunta: existe alguma alteração detectável pelos métodos utilizados?
O paciente, porém, talvez estivesse trazendo outra: o que está acontecendo comigo?
As duas perguntas se aproximam, mas não são idênticas.
Um exame pode não encontrar a causa de um sofrimento sem que, por isso, o sofrimento deixe de existir. A ausência de uma alteração mensurável não equivale à ausência de uma experiência. Quando confundimos essas duas coisas, corremos o risco de transformar o limite do instrumento em inexistência daquilo que ele não conseguiu alcançar.
Isso não significa que toda percepção subjetiva corresponda necessariamente a uma doença nem que a investigação clínica deva continuar indefinidamente até confirmar o temor do paciente. Significa apenas que o resultado de um exame responde à pergunta para a qual aquele exame foi construído. Nenhum instrumento pode ser responsabilizado por responder ao que nunca esteve ao seu alcance.
Os números falam. E, frequentemente, dizem coisas fundamentais.
A diminuição de um marcador pode mostrar que um tratamento está funcionando. Uma escala pode tornar reconhecível um sofrimento que antes era ignorado. Uma estatística pode revelar que determinada doença afeta desigualmente diferentes populações. Um indicador pode transformar casos aparentemente isolados em um problema público que exige resposta coletiva.
Medir também pode ser uma maneira de tornar visível.
O que precisa ser examinado, portanto, não é a legitimidade da medida, mas a extensão de suas respostas. Um número pode ser exato e, ainda assim, insuficiente. Pode descrever com grande precisão uma dimensão do fenômeno sem alcançar o significado que esse fenômeno assumiu na vida de alguém.
A dor talvez seja um dos exemplos mais claros dessa diferença.
Na prática clínica, é comum pedir ao paciente que atribua à sua dor um valor entre zero e dez. A escala é simples e útil. Permite estimar a intensidade do sintoma, acompanhar sua evolução e avaliar o efeito de uma intervenção. Se a dor passa de oito para três depois de um tratamento, alguma coisa importante aconteceu, e o número ajuda a reconhecê-la.
Entretanto, duas dores de intensidade sete não são a mesma dor.
Para uma pessoa, a dor pode representar o medo de que uma doença tenha retornado. Para outra, pode anunciar a perda progressiva da autonomia. Para alguém que vive sozinho, talvez signifique a possibilidade de já não conseguir cuidar de si mesmo. Em outra história, pode reativar a lembrança de um familiar que sofreu antes de morrer.
O número registra a intensidade da dor. Não revela, por si só, o mundo que ela ameaça.
Mesmo a intensidade pode não possuir o mesmo significado para todos. Há dores que alguém suporta porque sabe que terminarão. Outras se tornam quase insuportáveis não apenas por sua força, mas pela incerteza que carregam. Uma dor moderada, quando interpretada como sinal de uma ameaça grave, pode produzir mais sofrimento do que uma dor intensa cuja origem já é conhecida e cujo tratamento está definido.
A escala pergunta: quanto dói?
A compreensão precisa perguntar: o que essa dor está fazendo com a sua vida?
Essa diferença nos aproxima de uma distinção importante entre explicar um fenômeno e compreender uma experiência.
Explicar significa buscar causas, mecanismos, relações e regularidades. Diante de um sintoma, a medicina procura saber onde ele se origina, quais processos participam de sua produção, como pode evoluir e o que poderá modificá-lo. A explicação pretende responder o que está acontecendo e por que está acontecendo.
Compreender exige outro movimento. Significa aproximar-se da forma como o acontecimento está sendo vivido e do sentido que assume dentro de uma história. Não basta perguntar o que aconteceu no organismo. É necessário também perguntar o que aconteceu com a pessoa.
Wilhelm Dilthey, ao refletir sobre as diferenças entre as ciências da natureza e as ciências humanas, ajudou a reconhecer que determinados fenômenos podem ser explicados por suas relações causais, enquanto a vida humana também precisa ser compreendida por meio de suas expressões, de sua história e de seus sentidos.
Essa distinção não deveria ser convertida em uma separação rígida. O ser humano participa da natureza e pode ser investigado cientificamente. Ao mesmo tempo, vive experiências que adquirem significado dentro de uma biografia, de uma cultura e de um conjunto de relações.
Na medicina e na psiquiatria, Karl Jaspers percebeu a importância de aproximar essas duas formas de conhecimento. Existem fenômenos que procuramos explicar causalmente; outros exigem que tentemos compreender como uma experiência se tornou possível no interior da vida de alguém. A explicação causal e a compreensão não anulam uma à outra. Elas iluminam aspectos diferentes da mesma realidade humana.
Podemos explicar os mecanismos envolvidos em uma crise de ansiedade: as alterações fisiológicas, os circuitos ativados, as respostas corporais e os fatores que aumentam sua probabilidade. Mas, para compreender aquela crise, talvez seja necessário conhecer a história na qual ela apareceu. O que estava sendo ameaçado? O que aquela pessoa temia perder? Que experiência anterior retornava naquele momento? Por que aquele acontecimento, aparentemente pequeno para quem o observa de fora, adquiriu tamanha intensidade para quem o viveu?
A explicação identifica mecanismos compartilháveis. A compreensão procura alcançar uma configuração singular.
Nenhuma delas, isoladamente, deveria reivindicar toda a verdade.
Sem explicação, podemos atribuir significados a fenômenos que exigem investigação objetiva e tratamento específico. Sem compreensão, podemos tratar corretamente o mecanismo e permanecer distantes da pessoa em quem ele se manifesta.
Há ainda outra diferença importante. Uma medida costuma recolher algo que já pode ser identificado. A pressão arterial existe antes de ser aferida. O nível de determinada substância no sangue pode ser analisado mesmo que o paciente nada saiba sobre ele.
O sentido de uma experiência, entretanto, nem sempre permanece pronto, esperando apenas que alguém o descubra.
Muitas vezes, ele adquire forma durante a própria conversa.
Uma pessoa pode dizer que teme a cirurgia. Se houver tempo para continuar, talvez perceba que não teme exatamente o procedimento, mas a possibilidade de depender dos filhos durante a recuperação. Ao falar sobre essa dependência, pode reconhecer que seu sofrimento está ligado à imagem que construiu de si mesma como alguém que sempre cuidou dos outros e jamais precisou ser cuidada.
A primeira resposta era verdadeira, mas ainda incompleta. O medo não estava escondido em uma região mais profunda, como um objeto que o médico precisasse retirar. Ele foi se tornando compreensível à medida que a experiência encontrou linguagem.
Compreender não é apenas coletar mais uma informação subjetiva para acrescentá-la ao prontuário. É participar de uma relação na qual aquilo que está sendo vivido pode, pouco a pouco, tornar-se pensável e dizível.
Hans-Georg Gadamer mostrou que a compreensão não é um procedimento mecânico aplicado de fora sobre um objeto. Ela acontece no diálogo, quando estamos verdadeiramente dispostos a escutar aquilo que ainda não sabemos. Na medicina, essa disposição modifica o encontro clínico. O paciente deixa de ser apenas a fonte de informações necessárias ao diagnóstico e passa a participar da elaboração do sentido de seu próprio adoecimento.
Isso não transforma a consulta em psicoterapia nem retira do médico sua responsabilidade técnica. Apenas reconhece que uma decisão clínica nunca incide sobre um organismo abstrato. Incide sobre uma pessoa que precisará compreender, aceitar e viver as consequências daquela decisão.
Dois pacientes podem receber o mesmo diagnóstico, apresentar alterações semelhantes e possuir prognósticos comparáveis. Para um deles, a doença talvez represente um obstáculo temporário que precisa ser enfrentado. Para o outro, pode significar a interrupção de um projeto que organizava toda a sua existência. Os dados clínicos podem ser muito próximos. A experiência, não.
É por isso que a melhora de um indicador não coincide necessariamente com a recuperação da vida.
Uma pessoa pode apresentar exames melhores e, ainda assim, não conseguir retornar às atividades que lhe davam sentido. Pode viver mais tempo, mas sentir que perdeu a autonomia que tornava essa vida reconhecível como sua. Pode responder ao tratamento e, simultaneamente, experimentar seus efeitos como um preço difícil de suportar.
Georges Canguilhem mostrou que a saúde não pode ser reduzida à conformidade com uma média estatística. O normal não é apenas aquilo que aparece com maior frequência em uma população. Para o ser vivo, também envolve a capacidade de estabelecer novas formas de relação com o meio e criar outras possibilidades de vida diante das mudanças.
Essa compreensão é especialmente importante no cuidado das doenças crônicas, das limitações permanentes e do envelhecimento. Nem sempre cuidar significa restaurar todos os valores anteriores. Muitas vezes, significa ajudar a pessoa a construir uma forma possível e significativa de viver em uma realidade que já não poderá ser a mesma.
Para isso, os indicadores continuam necessários. Mas precisam conversar com aquilo que o paciente reconhece como melhora.
A questão ultrapassa os limites da medicina.
Vivemos em uma época fascinada pelas medidas. Contamos passos, horas de sono, calorias, produtividade, audiência, desempenho, avaliações e níveis de satisfação. Criamos indicadores para acompanhar quase todos os aspectos da vida. Eles nos ajudam a perceber padrões, estabelecer metas e tomar decisões. Entretanto, aquilo que pode ser contado adquire facilmente uma aparência de importância maior do que aquilo que permanece difícil de quantificar.
Uma escola pode elevar seus indicadores sem formar pessoas mais capazes de pensar. Uma empresa pode aumentar a produtividade enquanto esvazia o sentido do trabalho. Uma publicação pode alcançar milhares de pessoas sem produzir um encontro verdadeiro com nenhuma delas. Alguém pode cumprir todas as metas de desempenho e, ainda assim, não reconhecer sentido naquilo que faz.
Os números não estão necessariamente errados. Talvez apenas estejam respondendo a uma pergunta menor do que aquela que precisamos formular.
Quando um indicador se transforma em objetivo absoluto, começamos a organizar a realidade para melhorar a medida, e não necessariamente aquilo que ela deveria representar. O desempenho ocupa o lugar da aprendizagem. A audiência substitui a relevância. A duração da vida passa a ocultar a pergunta sobre a forma como essa vida está sendo vivida.
Medir é selecionar uma dimensão e torná-la comparável. Toda medida, portanto, ilumina alguma coisa e deixa outras na sombra. O problema não está nessa seleção, que é inevitável, mas no esquecimento de que ela aconteceu.
Reconhecer os limites da medida não é uma derrota da razão. É uma expressão de rigor.
Um instrumento se torna mais confiável quando sabemos exatamente o que ele consegue medir e o que permanece fora de seu alcance. Da mesma forma, reconhecer que determinadas dimensões da experiência humana exigem interpretação, escuta e diálogo não significa entregá-las à irracionalidade. Significa admitir que existem diferentes caminhos legítimos para o conhecimento.
A solidão pode ser investigada por escalas. Podemos estudar sua frequência, relacioná-la a doenças, observar seus efeitos e avaliar intervenções. Tudo isso é necessário. Mas nenhuma escala consegue dizer inteiramente o que significa para determinada pessoa entrar em casa e não encontrar mais aquele com quem compartilhou a vida durante décadas.
O luto possui manifestações que podem ser descritas, comparadas e acompanhadas. Mas a perda não é apenas a ausência de alguém. Muitas vezes, é também a perda da pessoa que éramos naquela relação.
O tempo pode ser medido com extraordinária precisão. Entretanto, uma hora de espera diante de uma notícia decisiva não possui a mesma duração vivida que uma hora passada ao lado de alguém que amamos.
A medida estabelece uma equivalência. A experiência restitui a diferença.
Talvez seja por isso que o cuidado mais completo não possa escolher entre números e narrativas. Precisa conhecer a alteração e ouvir a história. Precisa avaliar a resposta ao tratamento e perguntar o que essa resposta modificou na vida. Precisa considerar as evidências compartilhadas por muitos e compreender o que está em jogo para aquela pessoa particular.
A medida pode mostrar o que acontece no organismo.
A compreensão nos aproxima daquele com quem isso está acontecendo.
Quando essas duas formas de conhecimento se encontram, a decisão clínica deixa de ser apenas a aplicação correta de uma resposta geral. Pode tornar-se uma decisão capaz de reunir o que a medicina sabe sobre a doença e aquilo que somente o paciente pode revelar sobre sua vida.
Não se trata de pedir aos números que contem histórias. Tampouco de exigir das narrativas a precisão dos instrumentos. Trata-se de permitir que cada linguagem ofereça aquilo que consegue oferecer e reconheça honestamente aquilo que não pode oferecer sozinha.
Existem realidades que se revelam quando aperfeiçoamos nossos instrumentos. Outras aparecem quando diminuímos a distância entre as pessoas.
Talvez nem tudo o que importa possa ser medido.
Mas isso não torna essas dimensões menos verdadeiras. Apenas nos recorda que, diante de certas realidades, conhecer exige mais do que observar.
Exige aproximar-se para compreender.
Referências bibliográficas
CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Tradução de Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.
DILTHEY, Wilhelm. Introdução às ciências humanas: tentativa de uma fundamentação para o estudo da sociedade e da história. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
GADAMER, Hans-Georg. O caráter oculto da saúde. Tradução de Antônio Luz Costa. Petrópolis: Vozes, 2006.
JASPERS, Karl. Psicopatologia geral: psicologia compreensiva, explicativa e fenomenologia. Tradução de Samuel Penna Reis. Rio de Janeiro: Atheneu, 2000.
“O conhecimento ganha sentido quando se transforma em presença e cuidado.”
Esta publicação integra a produção editorial do Instituto de Formação Humanística em Saúde e propõe ampliar o diálogo entre ciência, experiência profissional e compreensão humana.
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