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O Saber fragmentado

Quanto mais avançamos no conhecimento, menores parecem tornar-se os territórios que cada um de nós consegue verdadeiramente conhecer. Esse movimento não aconteceu por acaso. Foi necessário dividir a realidade para estudá-la com profundidade. A ciência precisou delimitar objetos, separar fenômenos, criar disciplinas e desenvolver métodos específicos. A medicina precisou distinguir órgãos, sistemas, mecanismos e doenças. […]

Por Prof. Dr. Fernando Guedes6 min de leitura
O Saber fragmentado
Ciência · experiência · humanismo · cuidado

Quanto mais avançamos no conhecimento, menores parecem tornar-se os territórios que cada um de nós consegue verdadeiramente conhecer.

Esse movimento não aconteceu por acaso. Foi necessário dividir a realidade para estudá-la com profundidade. A ciência precisou delimitar objetos, separar fenômenos, criar disciplinas e desenvolver métodos específicos. A medicina precisou distinguir órgãos, sistemas, mecanismos e doenças. Sem essas divisões, grande parte do conhecimento que hoje possuímos não teria sido possível.

A especialização representa uma das maiores conquistas da inteligência humana. Graças a ela, podemos reconhecer alterações quase imperceptíveis, compreender mecanismos de extraordinária complexidade e realizar intervenções que, poucas décadas atrás, pareceriam inimagináveis. Ninguém desejaria ser tratado por um médico que conhecesse apenas superficialmente aquilo que faz. A profundidade exige concentração. Exige tempo, estudo e dedicação a um campo delimitado.

O problema, portanto, não está em dividir para conhecer.

Talvez esteja em esquecer que aquilo que separamos para estudar continua unido na realidade.

Todo conhecimento começa por uma escolha. Quando dirigimos nossa atenção para alguma coisa, colocamos essa coisa no centro e, inevitavelmente, deixamos outras na margem. Um microscópio nos permite enxergar estruturas invisíveis a olho nu, mas, enquanto olhamos por ele, o mundo ao redor desaparece. A ampliação revela detalhes extraordinários e, ao mesmo tempo, reduz o campo de visão.

Isso não é uma falha do instrumento. É a condição de sua precisão.

O risco surge quando passamos a acreditar que aquilo que não aparece em nosso campo de observação não existe, não importa ou não participa do fenômeno que estamos tentando compreender. Aquilo que foi deixado de lado por uma necessidade do método transforma-se, pouco a pouco, em uma ausência na própria realidade.

Uma parte é retirada do conjunto, examinada isoladamente e descrita com rigor. Depois de algum tempo, começamos a tratá-la como se existisse isoladamente.

É nesse momento que uma estratégia de conhecimento pode se transformar em uma concepção fragmentada do mundo.

As disciplinas são mapas que construímos para organizar a realidade. Biologia, física, psicologia, sociologia e filosofia não foram encontradas prontas na natureza, separadas por fronteiras visíveis. São formas humanas de reunir perguntas, métodos e objetos de investigação. Essas divisões são legítimas e extremamente fecundas. Mas pertencem ao modo como organizamos o conhecimento, não necessariamente àquilo que desejamos conhecer.

A vida não respeita os limites de nossos departamentos.

Um mesmo acontecimento pode ser, simultaneamente, biológico, psicológico, social, histórico e existencial. Uma dor possui mecanismos fisiológicos que podem ser investigados, mas também possui uma história, uma linguagem, um significado e uma maneira particular de ser vivida. O sofrimento não se apresenta dizendo a qual disciplina pertence. Somos nós que o distribuímos entre diferentes campos para poder estudá-lo.

O mapa é indispensável. Sem ele, podemos nos perder. Mas nenhum mapa contém a totalidade do território — e o perigo começa quando deixamos de perceber a diferença entre os dois.

Na medicina, essa questão adquire uma intensidade especial porque o objeto do conhecimento é também uma pessoa que sofre.

Um paciente idoso pode ser acompanhado por vários especialistas. Cada profissional examina cuidadosamente uma dimensão de seu organismo. Um cuida do coração; outro, dos rins; outro, dos pulmões; outro, do sistema nervoso. Cada avaliação pode estar tecnicamente correta. Cada conduta pode ser justificável quando considerada a partir do campo particular de quem a prescreveu.

Ainda assim, alguma coisa pode permanecer sem cuidado.

Os medicamentos indicados por um especialista podem interferir nos objetivos estabelecidos por outro. Um sintoma atribuído a determinada doença pode ser efeito de um tratamento instituído para uma condição diferente. Uma intervenção necessária do ponto de vista de um órgão pode produzir consequências importantes para a vida da pessoa considerada em seu conjunto.

Mas existe algo ainda mais profundo. Enquanto cada profissional encontra uma parte verdadeira do adoecimento, talvez ninguém reconheça inteiramente quem adoeceu.

A doença pode ser localizada em um órgão. O adoecimento, entretanto, atravessa a pessoa inteira. Alcança sua rotina, sua autonomia, seus vínculos, seus medos, seus projetos e sua maneira de imaginar o futuro. O diagnóstico pertence à medicina; a experiência de receber esse diagnóstico passa a pertencer à biografia de alguém.

Quando o conhecimento se fragmenta, existe o risco de que o paciente também seja fragmentado pelo olhar que pretende ajudá-lo. Ele deixa de ser alguém que vive uma experiência de adoecimento e passa a aparecer como uma sequência de problemas distribuídos entre especialidades diferentes.

Não porque os especialistas sejam indiferentes. Não porque lhes falte competência. Muitas vezes, ocorre justamente o contrário: cada um está profundamente comprometido com aquilo que aprendeu a reconhecer e tratar. O problema não está em qualquer um desses olhares separadamente. Está na ausência de um espaço no qual eles possam se encontrar.

É possível, assim, que uma pessoa seja examinada por muitos profissionais e permaneça sem ser verdadeiramente percebida. Todos olham para alguma coisa nela, mas talvez ninguém esteja olhando para ela.

A fragmentação do saber não se limita à medicina. Na universidade, campos vizinhos podem desenvolver linguagens tão especializadas que já não conseguem conversar entre si. Na escola, os estudantes aprendem conteúdos separados, mas raramente compreendem as relações que os unem. Nas instituições, cada setor desempenha sua tarefa, cumpre suas metas e apresenta seus resultados, embora o efeito conjunto das decisões permaneça invisível.

Passamos a saber cada vez mais, mas nem sempre sabemos como aquilo que conhecemos se relaciona.

O filósofo e sociólogo Edgar Morin dedicou grande parte de seu pensamento à necessidade de religar conhecimentos que haviam sido separados. Para ele, a complexidade não consiste em tornar tudo mais complicado. Consiste em reconhecer que os fenômenos são tecidos por relações e que as partes não podem ser plenamente compreendidas quando desligadas dos contextos aos quais pertencem.

Muito antes dele, Blaise Pascal já havia percebido a reciprocidade entre o conhecimento das partes e o conhecimento do todo. Não compreendemos verdadeiramente o conjunto se ignoramos seus componentes; mas também não compreendemos inteiramente cada componente se desconhecemos as relações que lhe dão lugar e sentido.

A totalidade, portanto, não é o contrário da parte. Também não é uma soma realizada depois que cada fragmento foi estudado separadamente. Existem propriedades que aparecem apenas nas relações. Uma palavra isolada possui um significado, mas sua presença em uma frase pode transformá-lo. Uma nota musical pode ser descrita com precisão, mas a música nasce da relação entre as notas, dos intervalos, do ritmo e até dos silêncios.

Conhecer cada nota não significa, por si só, ter escutado a música.

Algo semelhante acontece com o ser humano. Podemos conhecer sua anatomia, sua fisiologia, seus genes, suas alterações laboratoriais e seus mecanismos patológicos. Tudo isso é indispensável. Mas nenhuma dessas dimensões, isoladamente ou apenas somadas, revela inteiramente quem é a pessoa que se encontra diante de nós.

Não porque exista alguma insuficiência moral na ciência, mas porque todo método enxerga aquilo que seus instrumentos lhe permitem enxergar. Reconhecer esse limite não reduz o valor do conhecimento científico. Ao contrário, impede que peçamos à ciência respostas para perguntas que não podem ser respondidas apenas por seus métodos.

Entretanto, o desejo de superar a fragmentação também pode nos conduzir a outro erro.

Reunir não significa misturar.

Ciência, filosofia, psicologia, literatura e espiritualidade não são linguagens intercambiáveis. Elas não investigam necessariamente as mesmas perguntas, não empregam os mesmos métodos e não estabelecem seus conhecimentos pelos mesmos critérios. Aproximá-las não significa apagar suas diferenças nem utilizar uma para confirmar indevidamente as afirmações da outra.

Uma explicação biológica não pode ser substituída por uma metáfora. Uma experiência espiritual não pode ser comprovada por um exame laboratorial. Uma narrativa literária não oferece o mesmo tipo de conhecimento que um ensaio clínico. Contudo, isso não significa que apenas uma dessas formas de aproximação seja capaz de revelar tudo o que importa na experiência humana.

O desafio não é escolher uma linguagem e silenciar as demais. É compreender o que cada uma pode oferecer, até onde consegue chegar e em que momento precisa reconhecer seus próprios limites.

A integração verdadeira não produz uma mistura indiferenciada. Ela preserva as diferenças e cria condições para o diálogo.

Talvez por isso a imagem mais adequada não seja a de uma fronteira que precisa ser destruída, mas a de uma ponte que precisa ser construída. A ponte não elimina as margens. Não transforma dois territórios em um único território. Ela reconhece a distância entre eles e, justamente por reconhecê-la, torna possível a passagem.

Não precisamos abandonar as especialidades. Tampouco precisamos esperar o surgimento de pessoas capazes de dominar todo o conhecimento acumulado pela humanidade. Essa expectativa seria impossível e talvez nem sequer desejável. O que precisamos é formar profissionais capazes de aprofundar seu campo sem confundir a profundidade de seu conhecimento com a extensão da realidade.

O pensamento integrador não exige saber tudo.

Exige saber que o próprio olhar não vê tudo.

Essa consciência modifica a maneira como nos relacionamos com o conhecimento. Em vez de transformar os limites de nossa formação em limites do mundo, começamos a reconhecer as perguntas que ultrapassam nossos instrumentos. Em vez de considerar irrelevante aquilo que nosso método não alcança, aprendemos a perguntar que outra forma de aproximação poderá nos ajudar a compreender.

O especialista, então, não perde sua importância. Ao contrário, sua contribuição torna-se ainda mais precisa, porque ele sabe o que pode afirmar, o que permanece incerto e quando precisa estabelecer uma interlocução com outros campos.

Ortega y Gasset chamou a atenção para o perigo de uma especialização que concede ao indivíduo grande autoridade em uma parcela restrita do conhecimento, mas pode levá-lo a falar sobre todo o restante com uma segurança que sua formação não sustenta. O problema não é conhecer profundamente uma área. É permitir que essa profundidade produza a ilusão de que nenhuma outra perspectiva é necessária.

Talvez o verdadeiro especialista seja justamente aquele que chegou tão longe em seu campo que conseguiu enxergar também as suas fronteiras.

A profundidade, quando acompanhada de humildade, não conduz ao fechamento. Produz abertura. Quem conhece verdadeiramente a complexidade de um tema costuma tornar-se menos apressado diante das certezas e mais atento àquilo que ainda não consegue explicar.

Na medicina, essa humildade permite que o médico reconheça que o conhecimento da doença é indispensável, mas não suficiente para compreender a experiência de quem adoeceu. Permite que os exames respondam a perguntas clínicas sem ocupar o lugar da conversa. Permite que o protocolo oriente a conduta sem apagar a singularidade da pessoa. Permite, sobretudo, que o encontro com o paciente seja também um encontro entre diferentes formas de conhecer.

Talvez a fragmentação tenha sido o preço necessário da profundidade. Precisamos separar para observar, classificar, comparar e intervir. O erro não foi termos dividido o conhecimento. O erro seria acreditar que a realidade também se tornou dividida apenas porque nossos métodos precisaram separá-la.

O desafio que agora se apresenta não é desfazer as conquistas da especialização, mas completar o movimento iniciado por ela.

Depois de separar para conhecer, precisamos voltar a reunir para compreender.

As partes continuarão necessárias. Os especialistas continuarão indispensáveis. As fronteiras permanecerão legítimas. Mas será preciso reconstruir as relações, restabelecer os diálogos e criar passagens entre os territórios do saber.

Porque conhecer profundamente uma parte é uma conquista extraordinária.

Mas lembrar a realidade à qual ela pertence talvez seja o começo da sabedoria.

Referências bibliográficas

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução de Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Tradução de Eliane Lisboa. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2015.

ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. Tradução de Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

PASCAL, Blaise. Pensamentos. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

“O conhecimento ganha sentido quando se transforma em presença e cuidado.”

Esta publicação integra a produção editorial do Instituto de Formação Humanística em Saúde e propõe ampliar o diálogo entre ciência, experiência profissional e compreensão humana.

FG
Prof. Dr. Fernando Guedes

Médico, professor, palestrante e escritor.