Há pessoas que passam grande parte da vida com o livro aberto no lugar errado.
Voltam repetidamente às páginas anteriores, procurando uma frase que talvez pudesse ter sido escrita de outra maneira. Releem uma conversa, uma escolha, um caminho que não percorreram. Depois avançam, inquietas, tentando descobrir o que acontecerá nos capítulos seguintes.
Enquanto se deslocam entre aquilo que já foi escrito e o que ainda não pode ser lido, quase não percebem a página que permanece aberta diante delas.
Talvez todos nós façamos isso em algum momento.
Guardamos acontecimentos que gostaríamos de modificar. Uma palavra pronunciada sem cuidado. Uma ausência que somente mais tarde compreendemos. Uma decisão que alterou o curso de nossa história. Voltamos mentalmente àquele instante e imaginamos outras respostas, outros gestos, outros desfechos.
O passado não muda. Mas continuamos retornando a ele porque alguma parte de nós ainda procura uma possibilidade de intervenção.
Há uma dor particular em perceber que compreendemos tarde demais alguma coisa que teria sido necessária antes. Agora sabemos o que deveríamos ter dito, mas a conversa terminou. Reconhecemos o gesto que poderia ter sido feito, mas a oportunidade passou. Conseguimos enxergar o caminho, mas já não estamos diante da mesma encruzilhada.
Nenhuma compreensão posterior consegue abrir novamente aquele instante.
Isso não significa que as páginas anteriores estejam mortas. Elas permanecem em nós. A memória preserva vínculos, experiências, aprendizados e partes importantes da pessoa que nos tornamos. Sem ela, cada dia começaria sem raízes.
O problema não está em recordar. Está em permanecer inteiramente dentro da lembrança.
A memória ilumina quando nos ajuda a compreender a história que nos trouxe até aqui. Torna-se prisão quando passa a substituir o presente. Nesse momento, já não recordamos apenas o que aconteceu. Continuamos vivendo como se nada mais pudesse acontecer além daquilo.
Não podemos reescrever a página anterior. Mas podemos impedir que ela escreva sozinha todas as seguintes.
Também há pessoas que raramente voltam ao passado porque permanecem inteiramente ocupadas com o futuro.
Planejam, calculam, antecipam possibilidades e procuram prever cada risco. Acreditam que poderão finalmente descansar quando determinada etapa estiver concluída, quando um problema for resolvido, quando alcançarem segurança ou quando souberem exatamente o que acontecerá depois.
Planejar é uma forma de cuidado. Preparamos o futuro porque algumas escolhas realizadas hoje poderão protegê-lo ou torná-lo possível. Há responsabilidade em semear aquilo que ainda levará tempo para crescer.
Mas existe um momento em que a preparação se transforma em tentativa de controle.
Já não construímos possibilidades. Procuramos garantias. Queremos conhecer antecipadamente aquilo que somente poderá ser descoberto quando chegar. Ensaiamos respostas para acontecimentos que talvez nunca ocorram e sofremos hoje tentando evitar todas as dores de amanhã.
Planejar o futuro é uma forma de cuidado. Tentar vivê-lo antecipadamente é abandonar o presente.
Quantas vezes transformamos o dia atual em um simples corredor de passagem?
Vivemos como se a existência verdadeira fosse começar depois: quando terminarmos uma formação, concluirmos um projeto, resolvermos uma dificuldade, conquistarmos estabilidade ou encontrarmos tempo suficiente.
Enquanto isso, o presente é tratado como preparação. Não precisa ser vivido; apenas atravessado.
Mas, quando o futuro esperado finalmente chega, outro já aparece adiante. Uma nova condição precisa ser alcançada. Uma nova segurança precisa ser construída. E a vida continua sempre prestes a começar.
Talvez tenhamos dificuldade em permanecer na página de hoje porque ela raramente apresenta as condições ideais.
O presente contém cansaço, tarefas comuns, limites, perguntas sem resposta e problemas ainda sem solução. Há dias que não parecem guardar qualquer acontecimento memorável. Outros trazem uma realidade que não escolheríamos e da qual gostaríamos de escapar.
A página disponível nem sempre é a que desejávamos ler.
Não é difícil compreender por que procuramos refúgio em um passado conhecido ou em um futuro imaginado. Um já possui forma; o outro ainda pode receber todas as nossas expectativas. O presente, ao contrário, coloca-nos diante da realidade tal como ela é.
Estar presente não significa admirar cada instante, celebrar todo acontecimento ou transformar dias difíceis em oportunidades de crescimento. Algumas páginas são dolorosas. Outras parecem vazias. Há aquelas que atravessamos sem compreender por que precisaram fazer parte de nossa história.
Presença não é entusiasmo obrigatório diante da vida. É a disposição de não abandonar inteiramente a realidade que chegou.
É nessa página imperfeita que ainda podemos agir.
O passado pode ser compreendido, mas não modificado. O futuro pode ser preparado, mas não vivido antes de sua chegada. Somente o presente permanece aberto à nossa resposta.
Responsabilidade talvez seja exatamente isso: capacidade de responder.
Não escolhemos tudo o que aparece na página. Há acontecimentos que entram em nossa história sem pedir licença. Algumas perdas, limites e mudanças não foram escritos por nós. Não somos autores absolutos do livro.
Mas também não somos apenas leitores passivos.
Ainda podemos participar da maneira como receberemos aquilo que aconteceu. Podemos escolher uma palavra, realizar um gesto, reconhecer uma presença, reparar o que permanece reparável ou começar uma direção diferente.
Nem sempre nossa participação será grandiosa. Em certos dias, talvez ela consista apenas em não desistir. Em outros, em aceitar ajuda, dizer a verdade, acompanhar alguém ou fazer o que precisa ser feito sem conhecer ainda o resultado.
Viver exige que escrevamos sem acesso ao último capítulo.
Escolhemos sem conhecer inteiramente as consequências. Começamos projetos sem garantia de conclusão. Amamos pessoas sem saber quanto tempo permanecerão conosco. Algumas decisões que hoje parecem pequenas poderão, mais tarde, revelar-se decisivas. Outras, às quais atribuímos enorme importância, talvez desapareçam silenciosamente na continuidade da história.
Essa incerteza não é uma falha que o planejamento ainda não conseguiu corrigir. É parte da condição de viver.
Se conhecêssemos antecipadamente cada página e seu desfecho, talvez já não estivéssemos participando de uma história. Estaríamos apenas cumprindo um roteiro.
Marco Aurélio escreveu para si mesmo sobre a necessidade de manter a atenção naquilo que pertence ao momento presente. Sêneca, ao refletir sobre a brevidade da vida, mostrou que não é apenas o número de anos que determina sua extensão, mas a maneira como permanecemos diante do tempo recebido.
Talvez a presença seja uma forma de fidelidade ao que existe.
Não uma renúncia à memória nem um descuido com o futuro, mas a capacidade de reconhecer qual pergunta precisa ser enfrentada agora, quem está conosco, o que ainda pode ser oferecido e qual gesto pertence a este dia.
As páginas anteriores continuarão participando de nossa história. As próximas continuarão pedindo esperança, preparação e responsabilidade. Mas apenas uma está aberta ao alcance de nossas mãos.
Talvez a vida não nos peça para compreender o livro inteiro. Talvez nos peça apenas para estarmos presentes na página de hoje.
E talvez a pergunta mais importante não seja como terminará a nossa história, mas o que esta página — justamente esta, com tudo o que contém e tudo o que lhe falta — ainda está nos pedindo.
Referências
MARCO AURÉLIO. Meditações. Traduções e edições diversas.
SÊNECA, Lúcio Aneu. Sobre a brevidade da vida. Traduções e edições diversas.
“O conhecimento ganha sentido quando se transforma em presença e cuidado.”
Esta publicação integra a produção editorial do Instituto de Formação Humanística em Saúde e propõe ampliar o diálogo entre ciência, experiência profissional e compreensão humana.
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