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Compreender é encontrar

Alguém começa a falar. Conta uma dúvida, uma perda, alguma coisa que ainda não conseguiu compreender inteiramente. Enquanto as palavras procuram seu caminho, quem escuta já prepara uma resposta. Recorda uma situação semelhante, escolhe um conselho, identifica uma causa, formula uma explicação. A pessoa ainda não terminou de falar, mas nós já acreditamos ter compreendido. […]

Por Prof. Dr. Fernando Guedes3 min de leitura
Compreender é encontrar
Ciência · experiência · humanismo · cuidado

Alguém começa a falar.

Conta uma dúvida, uma perda, alguma coisa que ainda não conseguiu compreender inteiramente. Enquanto as palavras procuram seu caminho, quem escuta já prepara uma resposta. Recorda uma situação semelhante, escolhe um conselho, identifica uma causa, formula uma explicação.

A pessoa ainda não terminou de falar, mas nós já acreditamos ter compreendido.

Talvez conheçamos essa experiência pelos dois lados. Já estivemos diante de alguém que parecia nos ouvir, mas apenas esperava o momento de responder. E também já fomos aqueles que escutaram somente o necessário para encontrar uma solução, fazer uma comparação ou confirmar uma ideia que possuíam antes mesmo do início da conversa.

Externamente, o diálogo continuou. As palavras foram pronunciadas e recebidas. Mas o encontro talvez não tenha acontecido.

Podemos saber muitas coisas sobre uma pessoa. Conhecer sua história, sua profissão, seus hábitos, seus medos, as escolhas que fez e os acontecimentos que atravessou. Podemos saber o nome de sua doença, identificar padrões em seu comportamento e reconhecer as dificuldades presentes em suas relações.

Tudo isso pode ser verdadeiro. Tudo isso pode ser importante.

Mas saber muitas coisas sobre alguém não significa necessariamente saber como é ser aquela pessoa diante da vida que lhe aconteceu.

Há uma distância entre conhecer os fatos de uma história e aproximar-se do lugar interior a partir do qual essa história é vivida. Duas pessoas podem atravessar acontecimentos semelhantes e habitá-los de maneiras inteiramente diferentes. Aquilo que para uma representa liberdade pode significar abandono para outra. O silêncio que protege alguém pode aprisionar outra pessoa. Uma mesma perda pode tocar regiões muito distintas da existência.

Quando pensamos ter compreendido depressa demais, talvez tenhamos apenas colocado a experiência do outro dentro de uma explicação que já possuíamos.

Algumas explicações são corretas, mas chegam cedo demais.

Elas aparecem antes que a experiência tenha encontrado palavras, antes que a pessoa consiga reconhecer o que sente, antes que alguma pergunta mais verdadeira possa surgir. Em nossa tentativa de ajudar, encerramos aquilo que ainda precisava permanecer aberto. Oferecemos uma resposta quando o outro talvez necessitasse, primeiro, de um lugar onde pudesse escutar a própria pergunta.

O conselho pode ser sensato. A interpretação pode estar correta. A solução pode até se mostrar útil. Ainda assim, alguma coisa essencial pode ter sido deixada para trás: a pessoa não se sentiu compreendida, apenas examinada a partir de fora.

Carl Rogers percebeu que uma relação verdadeiramente transformadora depende da possibilidade de nos aproximarmos do mundo do outro tal como ele o experimenta. Isso não significa abandonar nosso próprio olhar nem concordar com tudo o que ouvimos. Significa reconhecer, por alguns instantes, que não somos o centro da experiência que está sendo narrada.

Escutar dessa maneira exige uma presença que se aproxima sem ocupar.

Talvez por isso seja tão difícil.

O silêncio exterior, por si só, não garante a escuta. Podemos permanecer calados enquanto, interiormente, classificamos, julgamos, comparamos e preparamos argumentos. Podemos olhar atentamente para alguém e, ainda assim, enxergar apenas aquilo que confirma nossas certezas.

A escuta começa quando suspendemos, ainda que provisoriamente, a necessidade de reduzir o outro ao que já sabemos.

Essa suspensão envolve um risco. Se permitirmos que a presença de alguém realmente nos alcance, talvez precisemos rever uma conclusão. Talvez descubramos que nossa primeira interpretação era insuficiente. Podemos ser obrigados a reconhecer uma dor que preferíamos não ver ou uma verdade que não cabe confortavelmente em nossa maneira de compreender o mundo.

Explicar alguém nos oferece certa segurança. Mantém a pessoa a uma distância administrável. Transformamos sua experiência em um caso conhecido, uma categoria, um comportamento previsível.

Encontrá-la é diferente.

O encontro não nos permite controlar inteiramente o que será revelado. Diante de uma pessoa real, nossas explicações permanecem incompletas. Sempre pode surgir uma lembrança inesperada, um significado que desconhecíamos, uma contradição que altera tudo aquilo que pensávamos compreender.

Talvez uma das maiores dádivas de ser verdadeiramente escutado esteja justamente aí: quando alguém não nos aprisiona em uma definição, podemos descobrir alguma coisa sobre nós mesmos que ainda não sabíamos dizer.

Há sentimentos que só se tornam reconhecíveis quando encontram uma presença capaz de recebê-los. Enquanto precisamos nos defender, justificar cada palavra ou corresponder às expectativas de quem nos escuta, permanecemos ocupados demais para perceber o que realmente acontece dentro de nós.

Mas, quando não precisamos produzir imediatamente uma explicação coerente, algo começa a mudar.

As palavras desaceleram. Os silêncios deixam de ser falhas que precisam ser preenchidas. As contradições podem aparecer sem que sejam corrigidas. Aquilo que parecia confuso começa, pouco a pouco, a adquirir forma.

Quem escuta não fabrica uma verdade para o outro. Oferece o espaço no qual essa verdade pode começar a emergir.

Todos nós talvez guardemos a lembrança de uma conversa assim. Uma conversa depois da qual o problema permanecia, mas já não éramos exatamente os mesmos diante dele. A pessoa que nos escutou não apresentou uma resposta extraordinária. Talvez tenha feito apenas uma pergunta. Talvez tenha permanecido em silêncio. No entanto, saímos daquele encontro um pouco mais próximos de nós mesmos.

Também é possível que convivamos durante anos com alguém sem jamais alcançarmos esse lugar.

Conhecemos suas rotinas, suas opiniões, seus gestos e as histórias que costuma repetir. Sabemos como reage, aquilo de que gosta e o que provavelmente dirá em determinadas situações. A familiaridade produz a impressão de que já não há nada a descobrir.

Talvez seja exatamente aí que o encontro se torne mais difícil.

Quando acreditamos conhecer completamente uma pessoa, deixamos de escutá-la no presente. Passamos a ouvir a lembrança que temos dela. Cada nova palavra é recebida por uma imagem antiga. Já não perguntamos quem está diante de nós; apenas confirmamos quem acreditamos que ela seja.

Quantas pessoas próximas permanecem desconhecidas porque nunca lhes fizemos uma pergunta verdadeira? Quantas vezes suas respostas começaram a surgir, mas não permanecemos em silêncio tempo suficiente para recebê-las?

Compreender alguém não significa decifrá-lo completamente. Toda pessoa conserva uma região que não cabe em nossas explicações. Há experiências que talvez nem ela própria consiga traduzir inteiramente. O encontro verdadeiro não elimina esse mistério nem tenta conquistá-lo. Aprende a permanecer diante dele com respeito.

Talvez compreender seja justamente abandonar a pretensão de possuir uma verdade definitiva sobre o outro.

É aproximar-se sem invadir. Escutar sem completar antecipadamente a frase. Reconhecer que a pessoa diante de nós pode ser maior do que sua história, seu comportamento, seu diagnóstico e até mesmo maior do que aquilo que ela consegue dizer naquele momento.

Há pessoas sobre as quais sabemos muitas coisas, mas que talvez nunca tenhamos verdadeiramente encontrado.

E talvez a pergunta mais importante não seja quantas pessoas conhecemos, mas diante de quantas conseguimos estar presentes o suficiente para permitir que sua existência finalmente nos alcançasse.

Referências

ROGERS, Carl R. On Becoming a Person: A Therapist’s View of Psychotherapy. Boston: Houghton Mifflin, 1961.

ROGERS, Carl R. A Way of Being. Boston: Houghton Mifflin, 1980.

“O conhecimento ganha sentido quando se transforma em presença e cuidado.”

Esta publicação integra a produção editorial do Instituto de Formação Humanística em Saúde e propõe ampliar o diálogo entre ciência, experiência profissional e compreensão humana.

FG
Prof. Dr. Fernando Guedes

Médico, professor, palestrante e escritor.