Uma tarefa que antes exigia duas horas agora pode ser realizada em alguns minutos.
Informações são organizadas, documentos são preparados, dados são comparados e possibilidades são apresentadas diante de nós com uma velocidade que, há pouco tempo, pareceria impossível.
Quando o trabalho termina, algo inesperado acontece: sobra tempo.
Durante alguns instantes, temos a impressão de haver recuperado uma parte do dia. Abre-se diante de nós um intervalo que antes não existia. Uma hora devolvida. Talvez duas. Um pequeno território ainda desocupado.
Mas o intervalo permanece vazio por pouco tempo.
Logo surge outra tarefa, outra mensagem, outra solicitação, outro objetivo que também poderá ser alcançado com maior rapidez. O tempo economizado deixa de significar descanso, presença ou liberdade. Passa a representar uma nova capacidade de produzir.
Aquilo que havia sido devolvido desaparece antes mesmo que pudéssemos recebê-lo.
Vivemos cercados por recursos criados para poupar tempo. Máquinas realizam trabalhos demorados, sistemas encurtam distâncias e aplicativos resolvem em segundos o que antes exigia deslocamentos, filas e espera. Nunca tivemos tantos instrumentos destinados a tornar a vida mais rápida.
Ainda assim, continuamos dizendo que não temos tempo.
Talvez exista uma diferença entre economizar tempo e recuperá-lo.
Economizamos tempo quando reduzimos a duração necessária para realizar uma tarefa. Recuperamos o tempo quando conseguimos devolvê-lo a alguma dimensão da vida que havia sido esquecida ou empobrecida.
Podemos economizar uma hora e não recuperar sequer um minuto de presença. A hora liberada pode ser imediatamente fragmentada, repartida entre novas obrigações e entregue à mesma lógica que a havia consumido.
A inteligência artificial torna esse paradoxo ainda mais visível.
Ela poderá assumir atividades repetitivas, organizar grandes quantidades de informação, auxiliar decisões e reduzir parte do trabalho burocrático que ocupa profissionais de diferentes áreas. Não é difícil imaginar quantas horas poderão ser liberadas quando aquilo que hoje exige esforço contínuo passar a ser realizado em poucos instantes.
A questão não está em recusar esse benefício. Seria estranho desejar conservar tarefas exaustivas apenas porque sempre foram feitas por seres humanos.
A verdadeira pergunta começa depois:
O que faremos com o tempo que a tecnologia nos devolver?
Podemos utilizá-lo para produzir ainda mais. Responderemos a um número maior de mensagens, elaboraremos mais documentos, assumiremos novos compromissos e aumentaremos as metas. Aquilo que deveria nos libertar poderá elevar novamente o padrão de exigência.
Cada ganho de eficiência criará uma expectativa correspondente. Se agora é possível realizar em uma hora o que antes exigia um dia, talvez deixemos de receber o restante do dia como liberdade. Apenas passaremos a acreditar que oito vezes mais deverá ser feito.
A velocidade, quando não sabemos para onde estamos indo, apenas nos permite chegar mais depressa a um lugar que talvez nunca tenhamos escolhido.
Na medicina, essa questão adquire uma importância particular.
Eric Topol imaginou a inteligência artificial como uma possibilidade de tornar a medicina novamente mais humana. Ao assumir parte das atividades administrativas e repetitivas, a tecnologia poderia devolver ao médico algo que se tornou cada vez mais escasso: tempo diante do paciente.
É uma possibilidade extraordinária.
Mas o simples aumento da duração de uma consulta não garante que um encontro aconteça.
O tempo liberado pode ser ocupado por novos formulários, mais protocolos ou maior número de atendimentos. Mesmo quando os minutos estão disponíveis, pode faltar disponibilidade interior. O médico pode permanecer mais tempo diante do paciente e continuar distante da experiência que ele tenta comunicar.
A tecnologia pode devolver o tempo da consulta. Não pode, sozinha, criar a presença do médico.
Presença não é apenas proximidade física. É a capacidade de permitir que alguma coisa nos alcance. Exige atenção, abertura e disposição para permanecer diante daquilo que ainda não compreendemos.
Uma pessoa hesita antes de responder. Interrompe uma frase, muda o tom de voz, procura uma palavra e depois desiste de pronunciá-la. Há momentos em que aquilo que não foi dito participa da consulta tanto quanto as informações registradas.
Perceber essa hesitação exige tempo. Mas exige também alguém capaz de reconhecê-la.
Uma pausa pode ser recebida como demora inútil ou como o lugar em que uma experiência procura encontrar palavras. Uma narrativa aparentemente sem importância pode ser interrompida para aumentar a eficiência ou acolhida como uma abertura para compreender quem está diante de nós.
A diferença não está apenas nos minutos disponíveis. Está naquilo que aprendemos a enxergar dentro deles.
É nesse ponto que a formação humanística se torna necessária.
Filosofia, literatura, psicologia, arte e espiritualidade não servem simplesmente para preencher a formação profissional com novos conteúdos. Elas ampliam nossa percepção da experiência humana. Ajudam-nos a reconhecer ambiguidades, silêncios, conflitos, medos, desejos e diferentes maneiras de atribuir sentido à vida.
A tecnologia pode abrir um intervalo. Mas somente alguém preparado para reconhecer o valor de uma presença saberá transformá-lo em encontro.
Isso não vale apenas para a medicina.
Podemos estar durante horas com uma pessoa sem verdadeiramente encontrá-la. Podemos responder às suas palavras enquanto pensamos em outra coisa, dividir uma refeição olhando continuamente para uma tela ou atravessar anos de convivência sem fazer uma pergunta cuja resposta ainda desconhecemos.
O tempo não é apenas uma quantidade de minutos. É também aquilo a que entregamos nossa atenção.
Há encontros breves que permanecem conosco por muitos anos. E há longos períodos dos quais quase nada conseguimos recordar, porque estivemos presentes apenas com o corpo, enquanto nossa atenção permanecia em outro lugar.
Talvez o tempo verdadeiramente vivido não seja apenas aquele que passa, mas aquele no qual alguma coisa consegue nos alcançar.
A tecnologia não é responsável pela dispersão de nossa atenção, embora possa ampliá-la. Tampouco a lentidão, por si só, nos torna mais presentes. Podemos viver devagar e continuar ausentes. Podemos utilizar instrumentos rápidos e, justamente por isso, conquistar condições para uma escuta mais demorada.
Não precisamos escolher entre eficiência e humanidade.
Precisamos perguntar a serviço de quê desejamos ser eficientes.
Se a rapidez nos permitir retirar da vida aquilo que é apenas repetição, poderemos devolvê-la ao cuidado, à criação, ao estudo, à convivência e ao silêncio. Mas, se todo minuto liberado for novamente oferecido à produtividade, teremos máquinas cada vez mais rápidas e continuaremos dizendo que não temos tempo.
O presente da tecnologia não será apenas aquilo que ela conseguir fazer por nós. Talvez seja também o espaço que ela poderá abrir para aquilo que somente adquire sentido quando decidimos estar presentes.
Todo presente, entretanto, precisa ser recebido.
Não basta que o tempo seja colocado diante de nós. Precisamos reconhecê-lo como algo que não deve ser imediatamente preenchido. Precisamos escolher a quem, a quê e a qual dimensão da vida desejamos oferecê-lo.
A inteligência artificial pode devolver tempo; somente uma formação humanística poderá transformar esse tempo em encontro.
Talvez essa seja uma das grandes perguntas de nossa época: quando a tecnologia nos devolver algumas horas de nossa existência, saberemos devolvê-las à vida?
Referências
ROSA, Hartmut. Acceleration: A Social Critique of Time. New York: Columbia University Press, 2013.
TOPOL, Eric. Deep Medicine: How Artificial Intelligence Can Make Healthcare Human Again. New York: Basic Books, 2019.
“O conhecimento ganha sentido quando se transforma em presença e cuidado.”
Esta publicação integra a produção editorial do Instituto de Formação Humanística em Saúde e propõe ampliar o diálogo entre ciência, experiência profissional e compreensão humana.
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