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Quando o barco vira

Durante a travessia solitária do Atlântico Sul, em 1984, o pequeno barco a remo de Amyr Klink virou três vezes. Por alguns instantes, o céu desapareceu, a água ocupou o lugar do ar e tudo perdeu a posição conhecida. Klink conseguiu desvirar a embarcação porque havia se preparado para aquela possibilidade e desenvolvido um sistema […]

Por Prof. Dr. Fernando Guedes3 min de leitura
Quando o barco vira
Ciência · experiência · humanismo · cuidado

Durante a travessia solitária do Atlântico Sul, em 1984, o pequeno barco a remo de Amyr Klink virou três vezes.

Por alguns instantes, o céu desapareceu, a água ocupou o lugar do ar e tudo perdeu a posição conhecida. Klink conseguiu desvirar a embarcação porque havia se preparado para aquela possibilidade e desenvolvido um sistema que permitia recuperá-la. A tempestade não fora escolhida, mas a eventualidade de enfrentá-la participara da preparação para a viagem.

No mar, era necessário colocar novamente o barco em sua posição e continuar a travessia.

Na vida, nem sempre isso é possível.

Há acontecimentos depois dos quais não conseguimos simplesmente desvirar a embarcação e retomar a mesma rota. Alguma coisa se altera de forma irreversível. O barco pode continuar existindo, mas o mapa já não corresponde às águas em que nos encontramos. Às vezes, somos nós mesmos que já não ocupamos a antiga posição.

Antes que algo assim aconteça, vivemos apoiados em certa continuidade. Planejamos porque acreditamos que amanhã conservará alguma relação com hoje. Construímos projetos, assumimos compromissos, estabelecemos vínculos e imaginamos futuros. Essa confiança não é um erro. Sem ela, talvez não conseguíssemos começar coisa alguma.

O problema surge quando transformamos continuidade em garantia.

Sem perceber, passamos a acreditar que a vida deverá respeitar o caminho que desenhamos para ela. Confiamos que as pessoas permanecerão, que o corpo continuará respondendo, que o trabalho conservará seu lugar e que os projetos amadurecerão conforme o tempo previsto.

Até que o barco vira.

Pode ser uma doença, uma perda, uma separação, o fim de uma atividade profissional ou o fracasso de um projeto ao qual dedicamos anos. Pode ser uma mudança no mundo que torna inútil aquilo que sabíamos fazer. Pode ser o envelhecimento, modificando silenciosamente a relação entre o desejo e as possibilidades do corpo.

Algumas vezes, a ruptura é súbita. Em outras, a embarcação se inclina lentamente, enquanto insistimos em agir como se ainda navegássemos nas mesmas condições.

Nosso primeiro impulso costuma ser retornar ao que existia antes. Tentamos recuperar a rotina, a identidade, a segurança e os planos interrompidos. Procuramos colocar cada objeto novamente em seu lugar.

Esse desejo não é fraqueza. Ele nasce do vínculo que estabelecemos com a vida que conhecíamos. Há situações que podem ser reconstruídas e barcos que podem ser desvirados. Nem toda dificuldade exige uma nova rota. Muitas vezes, é preciso perseverar, reparar o que foi danificado e continuar.

Mas existem acontecimentos diante dos quais o retorno deixa de ser possível.

Nesses momentos, a força empregada para recuperar o passado pode nos impedir de reconhecer o presente. Continuamos respondendo a uma realidade que já não existe. Repetimos os mesmos gestos, aumentamos o esforço e nos culpamos por não avançar.

Talvez não nos falte coragem. Talvez estejamos apenas remando na direção errada.

Persistência e rigidez podem parecer iguais quando observadas de fora. Ambas suportam o cansaço e resistem às dificuldades. Mas existe entre elas uma diferença essencial: a persistência permanece fiel ao que realmente importa; a rigidez permanece fiel apenas à forma anterior de realizá-lo.

Um caminho pode terminar sem que o sentido da viagem desapareça.

Alguém pode perder uma profissão e preservar sua vocação. Uma relação pode chegar ao fim sem apagar aquilo que aprendemos sobre o amor. O corpo pode impor novos limites sem retirar todas as possibilidades de presença e participação. Um projeto pode tornar-se inviável, enquanto a razão profunda que o originou encontra outra maneira de existir.

Mudar a forma não significa necessariamente abandonar o sentido.

Talvez uma das tarefas mais difíceis da maturidade seja distinguir aquilo que precisa permanecer daquilo que precisa ser deixado. Quando tentamos preservar tudo, corremos o risco de perder justamente o que havia de essencial.

Os mapas que construímos não são inúteis. Eles reúnem experiências, conhecimentos, previsões e caminhos possíveis. Precisamos deles para iniciar qualquer travessia. Mas nenhum mapa consegue conter todas as mudanças do território.

Um mapa pode ter sido correto e, ainda assim, deixar de servir.

Reconhecer isso não significa que planejamos mal. Significa apenas que a realidade é maior do que qualquer representação que fazemos dela. A sabedoria talvez não esteja em atravessar a vida sem mapas, mas em perceber quando o território começou a contradizê-los.

Há um momento em que continuar exige levantar os olhos do desenho e olhar novamente para o mar.

É então que surge uma pergunta mais difícil do que “como recuperarei aquilo que perdi?”:

O que não pode ser perdido dentro daquilo que estou perdendo?

Quando já não podemos salvar tudo, precisamos reconhecer o que verdadeiramente desejamos levar conosco. Talvez seja um modo de cuidar, uma responsabilidade, uma capacidade de criar, uma fidelidade, uma forma de amar ou a disposição de continuar participando da vida.

Nem sempre encontraremos uma resposta imediata. Grandes rupturas desorganizam também nossa capacidade de compreender. Precisamos de tempo para perceber o que terminou, o que permaneceu e o que ainda não encontrou nome.

Certos acontecimentos não modificam apenas nossas circunstâncias. Eles transformam a pessoa que as atravessa.

Não retornamos necessariamente a quem éramos antes. Podemos perder certezas, descobrir fragilidades e encontrar capacidades que nunca haviam sido convocadas. Isso não significa que o sofrimento seja necessário ou que toda perda produza crescimento. Há dores que deixam marcas sem oferecer qualquer ensinamento capaz de justificá-las.

Não precisamos agradecer à tempestade para reconhecer que agora estamos em outro mar.

Também não escolhemos tudo o que acontece conosco. Mas continuamos participando da resposta que construiremos diante do acontecimento. Essa participação pode ser pequena no início: aceitar ajuda, reconhecer um limite, abandonar uma expectativa impossível ou simplesmente sobreviver ao dia presente.

Recomeçar raramente possui a grandeza que lhe atribuímos depois que o tempo passou. Enquanto acontece, pode parecer apenas uma sucessão de movimentos incertos. Não sabemos ainda para onde estamos indo. Sabemos apenas que já não podemos permanecer exatamente onde estávamos.

Alguns barcos podem ser desvirados. Outros não serão recuperados. Em certas travessias, precisaremos aprender a navegar em uma embarcação diferente, com outro ritmo e em direção a um porto que não existia em nossos planos.

Isso não significa que a nova rota será melhor. Significa apenas que ela é a rota que agora pode ser percorrida.

Quando o barco vira, não basta remar com mais força na direção que já não existe.

Talvez recomeçar seja perceber que podemos abandonar uma rota sem abandonar a travessia. E reconhecer, em meio àquilo que não pôde ser salvo, o que ainda merece atravessar conosco.

Referências

KLINK, Amyr. Cem dias entre céu e mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

MUSEU DA PESSOA. Por muitos mares: história de vida de Amyr Klink. Entrevista integrante do acervo do Museu da Pessoa.

INSTITUTO CALDEIRA. Amyr Klink aos empreendedores: em 100 dias de viagem, sabia que tempestades viriam, mas não parei na primeira. 20 set. 2023.

“O conhecimento ganha sentido quando se transforma em presença e cuidado.”

Esta publicação integra a produção editorial do Instituto de Formação Humanística em Saúde e propõe ampliar o diálogo entre ciência, experiência profissional e compreensão humana.

FG
Prof. Dr. Fernando Guedes

Médico, professor, palestrante e escritor.